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Sociopoética. Uma Ponte para o Cuidar / Pesquisar em Enfermagem

Iraci dos Santos
RN, PhD, Profesor Titular de Investigación en Enfermería de la Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) - Brasil. Coordinadora de la Línea de Investigación "El cuidar en enfermería en el proceso salud - enfermedad" del Programa de Master en Enfermería de la Faculdade de Enfermagem da UERJ- Brasil

Correspondência: Iraci dos Santos. Rua General Roca, 572/901. Tijuca - Rio de Janeiro - Brasil. ZC: 20521-070

Manuscrito recebido em 1.07.2004
Manuscrito aceitado em 2.08.2004
 

Index de Enfermería [Index Enferm] 2005; 50: 35-37

 

 

 

 

 

 

 

Como citar este documento

 

 

dos Santos I. Sociopoética. Uma Ponte para o Cuidar / Pesquisar em Enfermagem. Index de Enfermería [Index Enferm] (edição digital) 2005; 50. Em </index-enfermeria/50revista/p5233.php> Consultado o

 

 

 

 

 

 

 

 

Introdução

     A sociopoética, criada pelo filósofo e pedagogo francês Jacques Gauthier foi desenvolvida no Brasil nas áreas de enfermagem, educação, psicologia e sociologia. Sendo uma abordagem no conhecimento do homem como ser político e social ela pode ser aplicada como  práticas social, educativa, de pesquisa e de cuidar. Nesta exposição apresento - a, principalmente,  conforme a vivi durante a construção / orientação de minha tese de doutorado, de 94 à 97, para justificar sua adequação como método de pesquisar / cuidar na enfermagem.
     Como método, a sociopoética defende a construção coletiva do conhecimento por parte dos  pesquisadores e sujeitos de pesquisa, tendo como pressuposto básico que todas as pessoas possuem saberes, (intelectual, sensível, emocional, intuitivo, teórico, prático, gestual) e,  sendo estes iguais em direito, transformam o ato de pesquisar  num acontecimento poético (do grego poiesis = criação).  Em sua ideologia ela é uma continuação do amadurecimento da Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire, cuja filosofia dialógica enfatiza que o nosso papel não é falar ao povo sobre a nossa visão do mundo, ou tentar impô-la a ele (...) e sim adotar uma postura de respeito mútuo e de troca entre saberes intelectuais e populares
1.
     A concordância da sociopoética com essa postura dialógica, para mim uma  caracterização da interação entre cliente e profissional, indispensável ao cuidar, me inspirou uma nova concepção de perspectiva estética visando aprofundar sua teorização e desenvolvê-la na prática da ciência sensível que é a enfermagem. Com esse método nos alertamos para a responsabilidade ética de  favorecermos a dialogicidade no cuidar / pesquisar, inclusive incentivando nos clientes sua criatividade reveladora de necessidades e desejo de saber sobre seu viver e conviver no mundo almejando bem-estar e eliminando  o mal - estar.
     Com a dialogicidade poderemos combater na  ciência, sobretudo  na área da saúde, a onipotência  destrutiva da natureza e dos seres humanos, dos quais precisamos para criar conhecimentos a fim de, com eles, potencializar forças de luta visando à autonomia  no nosso viver individual e profissional
2.

O dispositivo analítico grupo pesquisador

     A idéia de um cuidar / pesquisar  é inovadora porque potencializa  profissional e clientes a partir do princípio sociopoético - Instituição do dispositivo analítico grupo pesquisador (GP), o qual privilegia uma possível essência da enfermagem quanto ao entender o humano no ser humano (2), tendo os corpos dos envolvidos na pesquisa como fonte de conhecimento. Para isso, explora-se  o potencial cognitivo das sensações, da emoção e da gestualidade, para além da imaginação, da intuição e da razão, tanto na produção de conhecimentos quanto nas possibilidades de desenvolver o cuidar das pessoas.
     Reconheço que esta idéia do cuidar / pesquisar surgiu das minhas implicações psicoafetivas, histórico existencial e estrutural profissional inclusive para realizar o doutorado
2, pois nas orientações de pesquisa ressaltava-se meu interesse num método "atraumático" para orientanda, orientador e sujeitos de pesquisa, sobretudo quando o tema norteador era a relação entre estes pesquisadores. Quando o orientador me apoiou no desbravamento de uma nova forma de pesquisar, percebi que estava deslocando meu desejo de cuidar de pessoas para o ato de pesquisa até porque, naquele momento, estava afastada da prática assistencial e docente em enfermagem.
     Nesse deslocamento percebi que com a sociopoética e suas dinâmicas de relaxamento e sensibilização para incentivar o imaginário, suas práticas artísticas e dramatizações que possibilitavam a expressão cognitiva e de imagens sobre as coisas escondidas e recalcadas no nosso inconsciente. Quando as desenvolvia junto ao GP percebi que nos cuidávamos, não só contra os traumas da orientação de pesquisa e a construção mesma  da tese,  mas no sentido de que elevávamos nossa auto-estima pela descoberta do potencial para aprender cada vez mais, refletir sobre  o novo, inusitado, diferente e, argumentar sobre velhas e novas aprendizagens.
     Este foi o verdadeiro desafio da construção coletiva do conhecimento provocado pela sociopoética. Nesta aventura estávamos juntos, não apenas a pesquisadora e o orientador, mas os sujeitos da pesquisa, o GP formado por orientadores e  pós graduandos de mestrado e doutorado que também desenvolviam suas pesquisas. Daí seu interesse em participar dessa construção produzindo dados, acompanhando, contra analisando e avaliando a produção. Mais do que pesquisamos, muito nos divertimos ensaiando e experimentando técnicas que se adequassem ao nosso estudo. A sociopoética é uma filosofia e prática de pesquisar /cuidar prazerosa, inclusive por não se prender à rigidez de alguns métodos e, ao promover a criatividade artística na perspectiva estética do aprender, possibilita experimentações com vistas ao cuidado no rigor epistemológico e ético necessário a qualquer método.
     Desde o pensamento de Edgar Morin entendemos método como "uma ajuda à estratégia do pensamento", pois conforme diz o poeta: caminhante, inexiste caminho, ele se faz ao caminhar
1. Portanto vai o GP caminhando, "metodizando", em seis fases fundamentadas na teoria da Ação dialógica de Freire ; na Análise Institucional de Lourau/ Lapassad; na Esquizo - Análise de Deleuze e Guattari; e na Escuta Sensível de Barbier3. Assim caminha o GP interagindo coletivamente ao lidar com afetos, intuições e razão, emocões e sensações. Vai problematizando seu tema, experimentando e sugerindo técnicas, contando histórias, dramatizando percepções da vida, criando imagens para representar, quando tem dificuldade de verbalizar  o seu conhecer.

Sobre os princípios da sociopoética

Um princípio já descrito como dispositivo analítico - 1) o Grupo Pesquisador - , uma chave que condiciona os devires sociopoéticos, destaca o papel dos sujeitos pesquisados como co-responsáveis pelos conhecimentos produzidos, "co pesquisadores". No cuidar este princípio refere-se  ao lidar com o cliente acreditando que ele possui saberes próprios para cuidar de si, os quais devem ser compartilhados com a equipe de saúde. O dispositivo  grupo pesquisador, coração da sociopoética3, e originado deste princípio, ao propiciar auto e hétero  análise das implicações ajuda na auto compreensão e auto conhecimento interior dos membros do grupo, neste caso clientes e profissionais. O relacionar-se com o mundo, com os outros e consigo é então facilitado conduzindo à resolução de problemas pessoais, profissionais e institucionais, inclusive dentro do grupo.
     Ressalte-se na sociopoética mais quatro princípios a saber:

2) A importância das culturas dominadas e de resistência, das categorias e dos conceitos que elas produzem.  A valorização dos conceitos e confetos (um neologismo criado por Gauthier que significa mistura de conceito com afeto), característica da produção sociopoética), produzidos pelas culturas de resistência à exemplo: dos afro descendentes e indígenas, dos trabalhadores sem terra, das mulheres curandeiras e das culturas dominadas- a cultura do cliente em relação à do profissional de saúde ou da criança trabalhadora em relação à cultura escolar1.
     Observa-se nesse princípio a preocupação com valores, visões próprias, crenças,  interações com diversas culturas e experiências pessoais de crescimento. Transpondo para o cuidar, refere-se à enfermeira formar um grupo com seus clientes, não se considerando como única dona do saber em saúde e enfermagem e  buscando aprender com eles outras alternativas de cuidar. Assim, as pessoas se fortalecem e se ajudam a cuidar de si e dos outros.

3)  A importância do sentido espiritual, humano das formas e dos conteúdos no processo de construção de saberes. Alerta-se o pesquisador / cuidador para a ênfase na dimensão espiritual, humana e política da produção do conhecimento para prestação dos cuidados. Sobre esta produção lembra-se o significado deduzido do neologismo "sociopoética", referente a socius de raiz latina, "quem compartilha o mesmo pão"1, e em relação à prática de enfermagem, eu diria, quem compartilha da mesma realidade de cuidar e ser cuidado, de pesquisar e compartilhar da pesquisa, quem compartilha dos mesmos interesses, pois educar, cuidar e pesquisar dependem da aceitação e disposição dos envolvidos nesta atividade. A importância do sentido espiritual  no cuidar revela a necessidade de a enfermeira ter consciência de si e das pessoas ajudando-as a aceitar alternativas de cuidado e cura baseadas no poder da crença no self ou no espiritual.

4) A importância do corpo como fonte do conhecimento. - é o valorizar experiências de vida, aprendizagem adquirida através de  exposição às características de humanidade das pessoas, o que tanto acontece no cotidiano de enfermagem. É o pesquisar/cuidar com todo o corpo, atentando além da razão para as sensações, emoções, sensualidade, intuição natural das pessoas ao utilizar os sentidos no cuidar do humano no ser humano, ou seja, tratar o humano com humanidade, sensibilidade, solidariedade.

5) O papel da criatividade de tipo artístico no aprender, no conhecer e no pesquisar.
     O Princípio refere-se ao favorecer, pelo uso de técnicas artísticas de produção de dados, a emergência de pulsões e saberes inconscientes, desconhecidos, inesperados
3. O sensível, o emocional, o intuitivo são modos de conhecer o mundo, são energias vitais a compor a "ciência sensível", indispensável para compreensão integrada do ser humano.
     No cuidar / pesquisar, para conhecer o cliente propiciar a utilização criativa do seu próprio corpo, promover práticas artísticas que possibilite a expressão de emoções, sentimentos, sensibilidade e conseqüente  interação entre cliente e profissional pois a sensibilidade caracteriza e  autentica o profissional de enfermagem encorajando e fortalecendo o auto crescimento e auto realização daqueles com quem interage

Estudos analíticos sociopoéticos

     Entre as características da sociopoética os estudos analíticos e a construção de  poesia crítica a partir das falas expressões verbais ou artísticas do grupo pesquisador. Em 1995, quando surgiu a sociopoética estes estudos eram denominados: viril, mulheril, filosófico e infantil1, o que causou certo estranhamento nos leitores e iniciantes na pesquisa sociopoética. Na atualidade, devido à contribuição de pesquisadores da área da pós graduação esta nomenclatura mudou, conforme se apresenta:
     1) Viril /classificatório.- destaca as oposições, dicotomias, alternativas e escolhas existentes na produção do GP.
     2) Mulheril/ transversal.- continuidades, ambigüidade, convergências na estrutura de pensamento.
     3) Filosófico: desde referências teóricas escolhidas pelo/a facilitador(a) segundo suas inclinações, ou ainda pelo GP.
     4) Infantil /"surreal", pois consiste em subverter a estrutura do pensamento do grupo, criando uma outra lógica. Estudo aplicado na Vivência de Lugares Geomíticos, quando o/a facilitador(a) relaciona o que o GP colocou em lugares diferentes, propondo combinações e inversões inesperadas.
     Outra característica da sociopoética é a poesia crítica que surge do distanciamento crítico do pesquisador, rumo a conceitos nômades e desterritorializados. Ela enseja a  ressignificação do sentido da atividade científica, numa perspectiva complexa e intercultural, deixando de se assumir como um processo de formação de conceitos, valores, atitudes
1.

Conclusão

     Ao considerar as dimensões física e espiritual na construção do conhecimento, seja no pesquisar, educar e cuidar, a sociopoética estabelece uma ponte para uma ecologia política do espírito, firmando a solidariedade entre os seres vivos e a pluralidade autogestionária. Esta é uma visão sobre o pesquisar, educar e cuidar e, sobretudo uma filosofia de vida. Nesta óptica, devemos repensar e ressignificar não só as concepções de educador, pesquisador e cuidador, conforme a conhecemos, mas as possibilidades de seu desempenho através da abordagem sociopoética. Se o processo desenvolvido por estes profissionais não consiste apenas na transmissão e assimilação disciplinar de teorizações, imposição ou troca de saberes, ou imposição de cuidados  especializados1; ao pesquisador, educador e cuidador sociopoético compete a tarefa de propor estímulos (energia colateral) que ativem as diferenças entre os sujeitos e entre seus contextos históricos, culturais, organizações sociais, de modo a desencadear a elaboração e circulação de informações (versões das diferenças e das transformações) que se articulem em diferentes níveis de organização nos âmbitos subjetivo, intersubjetivo, cooperativo e coletivo, miscigenado1.
     Assim, concordamos com a afirmação dos sociopoetas
1: a tarefa do pesquisador/educador/ cuidador, nesta nova visão, será  a de  facilitar a auto-organização do pensamento grupal em relações de dialogicidade e com o próprio ambiente. Esta é a contribuição, a ponte original da sociopoética para a transformação poética das pessoas, gerando um conceito de cientificidade, de educação e cuidar mais humano1.

Referências

1. Santos, Iraci; Gauthier, J; Figueiredo, NMA; Petit, S. H. Prática da Pesquisa em Ciências Humanas e Sociais - Abordagem Sociopoética. Rio de Janeiro: Atheneu, 2004.
2.  Santos, Iraci; Gauthier, J. Enfermagem -  Análise Institucional e Sociopoética. Rio de Janeiro: Ed. Anna Nery / UFRJ, 1999.
3.  Gauthier, Jacques. Sociopoética - encontro entre arte, ciência e democracia na pesquisa em ciências humanas e sociais, enfermagem e educação. Rio de Janeiro: Ed. Anna Nery/UFRJ, 1999.

 

 

 

 

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