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Revista INDEX DE ENFERMERIA (Edicin digital) ISSN: 1699-5988

 

 

 

METODOLOGIA QUALITATIVA

 

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Etnografia na pesquisa em enfermagem: Relatos da construção de uma "descrição densa"
Adelina Giacomelli Prochnow,1 José Luís Guedes dos Santos,2 Suzinara Beatriz Soares de Lima,3 Joséte Luzia Leite4
1Doctora en Enfermería. Departamento de Enfermería, Universidad Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria, RS, Brasil. 2Maestría en Enfermería, Universidad Federal de Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS, Brasil. 3Profesora Asistente, UFSM/CESNORS, Palmeira das Missões, RS, Brasil. 4Enfermera. Livre Docente. Programa de Pós-Graduación, EEAN/UFRJ, Río de Janeiro, RJ, Brasil

Endereço: Adelina Giacomelli Prochnow. Rua Franklin Bittencourt Filho, 65. CEP: 97.105-150 - Camobi, Santa Maria, RS, Brasil

Manuscrito recebido em 10.6.2008
Manuscrito aceitado em 16.8.2008

Index de Enfermería [Index Enferm] 2009; 18(1):47-51

 

 

 

 

 

 

 

Como citar este documento

 

 

Prochnow, Adelina Giacomelli; dos Santos, José Luís Guedes; de Lima, Suzinara Beatriz Soares; Leite, Joséte Luzia. Etnografia na pesquisa em enfermagem: Relatos da construção de uma "descrição densa". Index de Enfermería [Index Enferm] (edição digital) 2009; 18(1). Em </index-enfermeria/v18n1/p6809.php> Consultado em

 

 

 

Resumo

A etnografia tem sido utilizada com freqüência na pesquisa em enfermagem. No entanto, continua sendo considerada por muitos pesquisadores como um método científico destinado a estudar culturas exóticas ou grupos sociais menos favorecidos. Este artigo objetiva divulgar e compartilhar as experiências dos autores com a utilização da etnografia como abordagem metodológica em uma pesquisa que buscou compreender as perspectivas culturais que envolvem o exercício da liderança do enfermeiro no contexto hospitalar. A fundamentação teórica e metodológica utilizada como sustentáculo na investigação foi a Antropologia Interpretativa de Cliffort Geertz. São tecidas considerações conceituais e práticas vivificadas na construção da análise etnográfica, a qual envolveu a utilização das técnicas de pesquisa observação participante e entrevista semi-estruturada permitindo a construção de uma "descrição densa" do objeto em voga. Salienta-se a etnografia como uma possibilidade a ser explorada no estudo dos fenômenos que envolvem o trabalho e a gerência de enfermagem.
Palavras chave: Antropologia Cultural, Pesquisa Qualitativa, Pesquisa em Enfermagem.

 

 

 

 

 

 

 

Introdução

    Este artigo originou-se no âmbito de um projeto de pesquisa intitulado "Liderança em Enfermagem Hospitalar: cultura e prática gerencial", desenvolvido pela Linha de Pesquisa Gestão em Enfermagem e Saúde do Grupo de Pesquisa Trabalho, Saúde, Educação e Enfermagem da Universidade Federal de Santa Maria - RS em parceria com o Núcleo de Pesquisa Gestão em Saúde e Exercício Profissional na Enfermagem da Escola de Enfermagem Anna Nery/UFRJ - RJ.
    Esse projeto de pesquisa teve como objeto de estudo a liderança em Enfermagem no contexto hospitalar e as perspectivas culturais que envolvem sua prática. Tal investigação objetivou: identificar o processo de liderança adotado por enfermeiros no contexto hospitalar; discutir a liderança dos enfermeiros a partir das suas concepções; e, interpretar o processo de liderança produzido no exercício laboral dos enfermeiros gerentes.
    Com foco no objeto a ser investigado e nos objetivos apresentados, a pesquisa caracterizou-se metodologicamente como um estudo de natureza qualitativa, com abordagem interpretativa, por meio do modelo de análise cultural hermenêutico. Esse modelo teve como base a etnografia proposta pelo antropólogo norte-americano Clifford Geertz, a qual se baseia na descrição em profundidade das culturas como "textos" vividos, como "teias de significado" que devem ser interpretadas.
1
    As técnicas de coleta de dados escolhidas para viabilizar tal interpretação foram a observação participante - método característico da etnografia - e entrevista semi-estruturada. A primeira baseia-se na participação do pesquisador na vida cotidiana do grupo ou organização estudada, com o intuito de observar as situações com as quais os pesquisados deparam-se normalmente e como se comportam diante delas, buscando descobrir a interpretação que os pesquisados têm sobre os acontecimentos observados.
2 Já a entrevista semi-estruturada, é um momento de interação social, no qual o pesquisador procura, por meio de tópicos pré-estabelecidos do embasamento teórico da investigação e as informações recolhidas dos fenômenos sociais observados, obter informações dos pesquisados acerca da problemática central.3,4
    Optou-se por essas técnicas de pesquisa por elas permitirem conhecer a representação dos agentes sobre seu trabalho, fazendo o contraponto com os dados obtidos com as observações do campo.
    Assim, para a coleta de dados, acompanhamos, durante cinco meses consecutivos do ano de 2005, os enfermeiros de uma unidade de Clínica Médica de um hospital universitário localizado na região central do estado do Rio Grande dos Sul (RS) nas diversas atividades que realizavam durante seu turno de trabalho. Permanecíamos na companhia deles durante a passagem de plantão, na visita diária aos pacientes internados na unidade, na realização de cuidados de enfermagem; bem como os assistíamos desempenhar suas atividades administrativas, entre as quais se destacavam a elaboração da escala de serviço mensal, a prescrição de planos assistenciais, o controle da infecção hospitalar e a supervisão das atividades dos técnicos e auxiliares de enfermagem.
    Além disso, também andamos no percalço dos pesquisados enquanto relaxavam no seu intervalo de trabalho e discutiam, informalmente, suas experiências pessoais e profissionais. Durante todos esses momentos, aproveitávamos ainda, quando havia tempo, para iniciar conversas com os enfermeiros acerca do que acontecia ou estava por acontecer na unidade, no intuito de garantir o entendimento dos fatos pela ótica dos que os protagonizavam.
    Dessa forma, este artigo tem,também, como objetivo compartilhar nossas experiências com a utilização da etnografia como abordagem metodológica na pesquisa em enfermagem e tecer algumas considerações teóricas e práticas vivificadas na implementação das técnicas de pesquisa que permitiram a construção da análise etnográfica. O trabalho justifica-se uma vez que a etnografia tem se configurado cada vez mais como uma realidade no contexto da pesquisa em enfermagem, mas, no entanto, permanece pouco conhecida como método científico ou ainda compreendida como sendo restrita a uma minoria de intelectuais com anos de formação ou mesmo uma tipologia científica que pode ser empregada apenas em sociedades fechadas com culturas exóticas ou no estudo de classes menos favorecidas socialmente.
5

Antropologia interpretativa: breve fundamentação teórica

    Para interpretar o processo de liderança dos enfermeiros no contexto hospitalar, a partir das suas concepções, buscamos sustentação teórica na Antropologia Interpretativa de Clifford Geertz.6-8
    Há, de maneira geral, um grande número de abordagens interpretativas nas ciências sociais, sob uma variedade de sentidos e com especificidades determinadas caso a caso. Porém, deve-se considerar que nem toda abordagem compreensiva é considerada hermenêutica, pois nem sempre as fronteiras podem ser estabelecidas com clareza. No entanto, em suas origens, a ciência social compreensiva ou interpretativa não se distingue da ciência social hermenêutica. É especialmente nos estudos de Wilhelm Dilthey (pai da ciência social compreensiva) que podemos encontrar as raízes dos debates de seu estatuto científico.
1,3,10
    O interpretativismo constituiu-se, basicamente, a partir de influências advindas da hermenêutica, da sociologia e da fenomenologia. Historicamente, os interpretativistas defendem a singularidade do inquérito humano, tendo por objetivo a compreensão do significado dos fenômenos sociais.
9-10
    A Antropologia Interpretativa considera o ser humano em sociedade sob suas múltiplas dimensões, consistindo na compreensão da humanidade sob o ponto de vista plural, integrativo. Na visão das especificidades interpretativistas, os adeptos reforçam a crença de que o comportamento humano é intencional, repelindo as explicações naturalistas e de causa-efeito. Dessa forma, pode-se considerar que diferentemente das ciências naturais que se interessam por aquilo que é geral, pelo que se repete e não apresenta variação, as ciências interpretativas visam às singularidades e especificidades do mundo social.1,9,10
    Por esse meandro, o conhecimento antropológico surge das práticas simbólicas e dos discursos vividos e não apenas de dois discursos explícitos, mas de dois inconscientes em espelho, que projetam uma imagem deformada. É o discurso sobre a diferença (e sobre minha diferença) baseado em uma prática da diferença que trabalha sobre os limites e as fronteiras.
10
    Desse modo, a construção do conhecimento pela Antropologia Interpretativa baseia-se no esforço de entender o outro, o diferente, o que deve nos levar a ver-nos como os outros nos vêem.11 Para utilizarmos a ciência social interpretativa, em geral, é importante estarmos cientes de que as incertezas e as ambigüidades fazem parte do processo de forma intensa, pois as relações causais, cíclicas, são trocadas por uma série de tentativas de entendimentos sob um contexto específico, no qual serão encontradas inúmeras dificuldades desconhecidas.
    A proposta etnográfica de Geertz, é interpretar "suas experiências, e depois utilizamos os relatos daquelas interpretações para tirar algumas conclusões sobre expressão, poder, identidade, ou justiça, sentimo-nos, a cada passo, bem distantes de estilos-padrão de demonstração.
6:14
    Dessa forma, é por intermédio de caminhos improvisados e sinuosos que aparece o resultado, onde tem de aparecer. Portanto, o sistema de análise é construído de forma progressiva, a partir de respostas individuais que ratificam que a cultura é adquirida, que é indicado explicá-la segundo as circunstâncias estruturais locais de saber. 

O trabalho de campo: em busca da "descrição densa"

    Elencamos para o presente trabalho relatar como ocorreu nossa entrada no campo, a naturalização da nossa presença, o registro dos dados e como os significados foram atribuídos a eles e, por fim, mas também importante, a saída do campo.

Entrada no campo: momento em que pesquisador e objeto a ser pesquisado confundem-se

    A entrada no campo é um dos momentos mais importantes da pesquisa de abordagem etnográfica,12,13 sendo que dessa etapa pode estar condicionado todo o êxito da pesquisa.14
    Cientes disso, antes de nos inserirmos no local onde a pesquisa foi realizada, procuramos, cumprir com todos os preceitos éticos preconizados pela Resolução 196/96 para pesquisas envolvendo seres humanos. Dessa forma, obtivemos a aprovação do projeto de pesquisa na Direção de Ensino, Pesquisa e Extensão (DEPE) e no Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da instituição a qual o hospital, palco do estudo, está vinculado.
    Após isso, encaminhamos os projetos para a Direção de Enfermagem, que também foi favorável ao desenvolvimento do mesmo. Em seguida, a pesquisa foi apresentada à chefia de enfermagem imediata da unidade de internação onde os dados foram coletados, a qual concordou com a realização da investigação.
    Nos primeiros períodos de observação, podemos afirmar que houve momentos nos quais deixávamos de ser pesquisadores e passávamos a objetos de estudo dos membros da equipe nas qual estávamos nos inserindo. Inúmeras foram às vezes em que fomos questionados acerca do que realizávamos exatamente e qual foco possuía nossa observação. Em decorrência disso, fomos comparados, em muitos momentos, como sombras ou espiões que seguiam os enfermeiros durante suas atividades.
    Com o avançar da coleta de dados, nossas sombras perderam um pouco da sua força, assim, ocorreu o fenômeno denominado naturalização da nossa presença.
1,6-8

Nossa presença naturalizada: construção de relações com os atores do estudo

    Com nossa presença tornando-se rotineira, passamos a ser vistos não mais como "estranhos" (pelo menos não tão "estranhos") aos atores do estudo. Isso nos possibilitou maior acesso às atividades que eles desenvolviam, bem como as suas opiniões e percepções acerca do que faziam. Acreditamos que isso ocorreu em decorrência das relações de troca que construímos com os atores do estudo, como, por exemplo, auxílio em alguns procedimentos.
    No entanto, é importante salientar que a cumplicidade dessas relações pode ser perigosa para o desenvolvimento da pesquisa. A participação constante do pesquisador na vida de um grupo o torna familiar aos seus componentes. Diante disso, cabe ao pesquisador manter certa objetividade (imparcialidade) na relação com o grupo pesquisado, no intuito de evitar interferências nas observações do objeto de estudo que o levem a proteger determinados componentes com os quais desenvolveu maior afinidade.
1
    Para mantermos o máximo de imparcialidade, procuramos realizar períodos de observação em turnos variados, acompanhando da forma mais equivalente possível os atores do estudo. No entanto, uma completa objetividade é uma idealização quando falamos em etnografia. Um estudo etnográfico caracteriza-se pela busca de um indivíduo em compreender o mundo do outro, sendo que ambos possuem um sistema cultural histórica e socialmente construído que lhe são peculiares.7 Para evitar a interposição entre as opiniões do outro e o que pensamos acerca das suas ações, o etnógrafo deve buscar o registro das percepções e, principalmente, das interpretações dos grupos pesquisados sobre o que realizam.6,8

Registro dos acontecimentos: sistemático, mas não reducionista

    Para o registro das informações, optamos pela elaboração de um diário de campo, que consiste no "registro diário de eventos e conversas ocorridas; das anotações em campo que podem incluir um diário, embora tendam a ser mais abrangentes analíticas e interpretativas do que uma simples enumeração das ocorrências".13:179 O diário de campo é um importante recurso, pois permite ao pesquisador consultar novamente um acontecimento existente apenas no seu próprio momento de ocorrência.6
    A partir de cada momento de observação, realizamos anotações no diário de campo acerca das nossas percepções dos fatos, sentimentos e dificuldades vivenciadas. Nas primeiras semanas de coleta de dados, o registro era feito por meio de palavras-chaves ou de forma sucinta no campo mesmo, os quais eram posteriormente melhor elaborados. Porém, ao percebermos que isso despertava desconfiança entre os pesquisados, optamos por escrever nossas observações imediatamente após a saída do campo, no intuito de garantir a recordação de todos os acontecimentos observados. Como, dessa forma, conseguimos manter a qualidade dos relatos, adotamos o registro dos acontecimentos após a saída do campo até o final da coleta de dados.
    Outra questão pertinente a ser abordada, é o que registrar e como fazê-lo. A participação na vida do grupo pesquisado nos permitiu assistir de forma privilegiada a uma série de situações e cenas marcantes do cotidiano de trabalho que eles, junto com outros atores, protagonizavam. Diante disso, recomenda-se que os registros no diário de campo sejam completos e abranjam, inclusive, relatos que a priori não apresentam estreita ligação com o objeto em estudo, mas que podem adquirir significância com o desenrolar da investigação ou ao serem confrontados com os demais acontecimentos.
1,14 Tal atitude é importante, pois "fatos pequenos podem relacionar-se a grandes temas".6:17
    Quanto à forma de realizar as anotações, devem-se construir relatos os mais completos possíveis, para que o leitor possa entender e imaginar a situação descrita. Para isso, é necessário evitar expressões adjetivas como "triste", "alegre" e outras similares, pois as mesmas demonstram juízo de valor com relação à cena assistida. Para substituí-las, pode-se, por exemplo, empregar a expressão: "naquela manhã, trazia em seu rosto um sorriso e um brilho diferente nos olhos". Esse tipo de construção textual permite ao leitor entender que tal indivíduo apresentava-se, no caso, feliz, sem no entanto afirmá-lo diretamente.
    Apresentamos abaixo, dois fragmentos do nosso diário de campo a fim de exemplificar melhor o exposto:
    [...] ao dar-se conta de que uma das médicas residentes havia levado consigo duas pastas de anotações de enfermagem, solicita à secretária que localize a médica e peça a ela que traga as pastas. A funcionária, antes de realizar a ligação, franze a testa e mantém a boca por alguns instantes entreaberta. Feito o contato, desloca-se até a enfermeira e comenta: 'ela disse que não traz as pastas, que é para ir buscar lá e delicadamente desligou o telefone na minha cara. A enfermeira recomenda que ela releve a atitude da médica, pois 'eles são assim mesmo.
    Após o término da passagem de plantão, as duas enfermeiras do plantão da manhã permanecem no posto de Enfermagem, começam a conversar alto e riem muito. Sem que elas percebam, um dos médicos da unidade passa pelo corredor avista a cena pela porta que estava entreaberta, balança lateralmente a cabeça e sorri.

"Dados" ou fatos: em busca de significados na pesquisa etnográfica

    Para o êxito da pesquisa etnográfica é importante que as etapas de coleta e análise de "dados" ocorram de forma concomitante. De tal forma, que o "estar no campo" configure-se como um constante diálogo entre a essência do objeto, as hipóteses a serem investigadas e o que o campo "fala".14
    Utilizamos a expressão "dados", por ser o termo geralmente empregado, mas é importante refletirmos acerca dela. O "dado" é algo que se "dá," "o que se apresenta à consciência como imediato, não construído ou não elaborado".15:517 O uso do termo "dado", assim, remete-nos a uma noção estanque do que consiste, na realidade, a pesquisa etnográfica.
    A essência da concepção dessa tipologia científica é a interpretação que as pessoas têm dos que elas realizam e o significado que essas realizações adquirem no seu cotidiano. A partir desse pensar, poder-se-ia utilizar o substantivo "fato" no lugar de "dado", pois o mesmo indica "coisa ou ação feita; caso, acontecimento, feito".
15:761
    Assim, o objetivo da etnografia é "tirar grandes conclusões a partir de fatos pequenos, mas densamente entrelaçados, apoiar amplas afirmativas sobre o papel da cultura na vida coletiva empenhando-se exatamente em especificações complexas".6:20 No nosso caso, a fim de revelar o sistema cultural que permeia o exercício da liderança no ambiente hospitalar, realizamos, primeiro, a organização e seleção dos fatos que emergiram da coleta de "dados", os quais foram, em seguida, sistematizados e lapidados em estruturas de significado.

O encerramento da coleta de "dados" e a despedida do campo

    Cerca de duas semanas antes do encerramento da pesquisa, distribuímos aos enfermeiros que compuseram o corpo do estudo um instrumento de avaliação com o seguinte questionamento: Quais sentimentos, opiniões ou análises você gostaria de expressar com relação ao projeto desenvolvido e a forma os dados foram coletados?
    A maioria dos enfermeiros optou por verbalizar suas impressões ao invés de registrá-las de forma escrita. Eles apontaram que era estranho, inicialmente, ser observado durante a sua prática laboral, mas que, no entanto, aos poucos esse sentimento de estranheza foi diminuindo e deixamos de ser vistos como pesquisadores e passamos a ser percebidos da mesma forma como outros acadêmicos que realizam atividades extracurriculares. Ressaltamos que essa comparação justifica-se visto que a coleta de dados foi realizada pelo autor deste artigo que era, naquele momento, acadêmico de Enfermagem.
    Ao nos retirarmos do campo de estudo, comprometemo-nos com a divulgação dos resultados obtidos aos participantes da pesquisa. Acreditamos que esse retorno é uma etapa fundamental de toda investigação e adquire ainda mais relevância por termos realizado um estudo com abordagem etnográfica, o qual permite ao grupo pesquisado uma reflexão com relação às condutas e ações que realizam e a forma pela qual as mesmas são influenciadas pelo seu sistema cultural.

Considerações finais

    A pesquisa etnográfica nos permitiu "viver no mundo" de um grupo de enfermeiros com o objetivo de buscar compreender a liderança que eles exercem e as perspectivas culturais que envolvem essa prática no seu cotidiano. Nossa viagem etnográfica foi guiada pela Antropologia Interpretativa de Clifford Geertz, o qual preconiza uma "descrição densa" e o mais completa possível do que fazem e das perspectivas imediatas que um grupo tem das ações que desempenham.
    As técnicas de pesquisa utilizadas foram a observação participante e entrevista semi-estruturada. Para captarmos cada fato observado, elaboramos um diário de campo no qual registramos além dos acontecimentos observados, nossas percepções, sentimentos e dificuldades vividas com a realização da investigação.
    Nossa entrada no campo de estudo foi um momento de descoberta tanto para os pesquisadores como para os informantes, pois, ao mesmo tempo em que buscávamos interpretar as ações do grupo pesquisado, eles estranhavam nossa presença e questionavam nossa função no contexto da unidade. À medida que construímos relações com os pesquisados, nossa presença foi naturalizada e o desenrolar da pesquisa foi mais tranqüilo, pois eles passaram a nos revelar com mais facilidade suas percepções acerca das ações que realizavam.
    Tal naturalização foi referida pelos pesquisados no momento da nossa saída do campo. Eles apontaram um certo "estranhamento" no início da investigação, o qual se dissipou ao longo da mesma. Nesse momento, também nos comprometemos com a divulgação dos resultados do estudo, a fim de proporcionar aos informantes uma reflexão acerca das ações que desempenham.
    Portanto, a etnografia permite uma interação com o "objeto" de estudo e a construção de um conhecimento a partir da observação da realidade, pois é possível captar o significado e a subjetividade que os profissionais atribuem ao seu trabalho. Dessa forma, a etnografia representa uma possibilidade a ser explorada no campo da pesquisa qualitativa em Enfermagem, por permitir a descrição e interpretação singular de fenômenos que envolvem o trabalho e a gerência do cuidado do enfermeiro.

Referências

1. Goldemberg M. A arte de pesquisar: como fazer pesquisa qualitativa em ciências sociais. 10a ed. Rio de Janeiro: Record; 2007.
2. Becker HS. Métodos de pesquisa em ciências sociais. 4a ed. São Paulo: Hucitec; 1999.
3. Haguette TMF. Metodologias qualitativas na sociologia. 7a ed. Rio de Janeiro: Vozes; 2000.
4. Triviños ANS. Introdução à Pesquisa em Ciências Sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas; 1987.
5. Sousa LB, Barroso MGT. Pesquisa etnográfica: evolução e contribuição para a enfermagem. Escola Anna Nery. Revista de Enfermagem. 2008 12(1), p.150-155.
6. Geertz C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos; 1989.
7. Geertz C. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. Petrópolis (RJ): Vozes; 1997.
8. Geertz C. Nova luz sobre a antropologia. Rio de Janeiro: Zahar; 2001.
9. Prochnow AG. O exercício gerencial do enfermeiro: cultura e perspectivas interpretativas [tese]. Rio de Janeiro (RJ): UFRJ/Programa de Pós Graduação em Enfermagem; 2004.
10. Laplantine F. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense; 2000.
11. Prochnow AG, Leite JL, Trevizan MA, Manifestações culturais e corpóreas do enfermeiro na sua prática gerencial. Texto Contexto Enferm. 2006 Jul - Set. 15(1): 449-57.
12. Deslandes SF. Frágeis deuses: profissionais da emergência entre os danos da violência e a recriação da vida. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 2002.
13. Cicourel A. A teoria e o método na pesquisa de campo. In: Guimarães AZ, organizador. Desvelando máscaras sociais. 3a ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves; 1990, p.87-121.
14. Sato L, Souza MPR. Contribuindo para desvelar a complexidade do cotidiano através da pesquisa etnográfica em psicologia. Psicologia USP 2001 12(2): 29-47.
15. Ferreira ABH. Novo dicionário da língua portuguesa. 2a ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 1986.

 

 

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