ENTRAR            

 


 

Enfermer�a Comunitaria (revista digital) ISSN: 1699-0641 2017 v13

 

 

ORIGINALES

 

Documentos relacionados

En Espa�ol

 Ir a Sumario

Documento anterior

Documento siguiente

Enviar correo al autor

 

 

Comportamento em saúde de homens adultos que procuraram serviços de pronto atendimento

Guilherme Oliveira de Arruda,1 Mayckel da Silva Barreto,2 Sonia Silva Marcon3
1
Enfermeiro, Centro de Atenção Psicossocial III. Doutorando do Departamento de Enfermagem, Universidade Estadual de Maringá, Brasil. 2Doutor em enfermagem, professor do Departamento de Enfermagem da Fundação Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Mandaguari, e do Departamento de Enfermagem da Universidade Estadual de Maringá, Brasil. 3Professora do Departamento de Enfermagem, Universidade Estadual de Maringá, Brasil

Manuscrito recibido el 27.6.2014
Manuscrito aceptado el 19.1.2015

Enferm Comun 2017; 13

 

 

 

Cómo citar este documento

De Arruda, Guilherme Oliveira; Barreto, Mayckel da Silva; Marcon, Sonia Silva. Comportamento em saúde de homens adultos que procuraram serviços de pronto atendimento. Enfermería Comunitaria (rev. digital) 2017, v.13. Disponible en <https://www.index-f.com/comunitaria/v13/e9528.php> Consultado el

 

Resumo

Este estudo teve como objetivo conhecer o comportamento em saúde de homens adultos e entender a relação entre o comportamento e a procura pelos serviços de saúde. Estudo descritivo qualitativo. A coleta de dados foi realizada em dois serviços de pronto atendimento, com 32 homens adultos, por meio de entrevistas semi-estruturadas. As falas foram analisadas por meio de análise de conteúdo, modalidade temática. Os respondentes revelaram que as peculiaridades de gênero influenciam sobre o cuidado em saúde; que a busca por serviços de urgência se relaciona com a prontidão do atendimento e que atividades preventivas não eram rotineiramente realizadas, principalmente em virtude do trabalho, que foi descrito como limitador do tempo para o cuidado. Destaca-se a importância de os profissionais de saúde conhecerem as práticas comportamentais dos homens adultos em relação à própria saúde e que estas envolvem questões de gênero, trabalho e imediatismo em resolver os problemas de saúde.
Palavras chave: Gênero e Saúde/ Saúde do Homem/ Serviços Médicos de Urgência

 

 

Resumen (Comportamiento de la salud de los hombres adultos que buscaran servicios de emergencia)

Este estudio tuvo como objetivo evaluar el comportamiento de salud de hombres adultos y entender la relación entre el comportamiento y la demanda de servicios de salud. Estudio descriptivo cualitativo. La recolección de datos se realizó en dos servicios de emergencia, con 32 hombres adultos, a través de entrevistas semi-estructuradas. Los discursos fueron analizados por contenido temático. Los encuestados revelaron que las peculiaridades de género influido en cuidado de salud, la búsqueda de servicios de emergencia que está relacionada con la prontitud de la atención y las actividades preventivas no se realizaron de forma rutinaria, sobre todo por el trabajo que se ha descrito como limitación del tiempo de cuidar. Destaca la importancia de los profesionales de salud conocen las prácticas de comportamiento de hombres adultos en relación con su propia salud y que estos implican cuestiones de género, trabajo y la inmediatez en la solución de problemas de salud.
Palabras clave: Género y salud/ Salud del Hombre/ Servicios Médicos de Urgencia

 

 

 

Abstract (Health behavior of adult men who sought emergency services)

This study aimed to know the health behavior of adult men and understand the relationship of their behavior with the demand for health services. A descriptive qualitative. Data collection was conducted in two emergency services along with 32 adult men, through semi-structured interviews. The speeches were analyzed for thematic content. Respondents indicated that gender influenced peculiarities in health care, the search for emergency services was related to the promptness of care and preventive activities were not routinely performed, mainly because of the work that has been described as limiting time to practice care. The study highlights the importance of health professionals know the behavioral practices of adult men in relation to their own health and that these involve issues of gender, work and immediacy in solving health problems.
Key-words: Gender and Health/ Men's Health/ Health Services Emergency

 

Introdução

    O atual corpo de conhecimento sobre a saúde masculina tem reiterado que representações e práticas sociais configuram um modelo de masculinidade que favorece a manutenção de relutâncias em cuidar da própria saúde. Além disso, os estudos têm demonstrado um perfil preocupante de morbimortalidade entre os homens, marcado principalmente pelas doenças cardíacas, cerebrovasculares e causas externas, evitáveis por comportamentos preventivos.1

Diante da crescente preocupação com este perfil, alguns estudos sobre saúde do homem tem-se apoiado na perspectiva de gênero,1,2 o que permite a melhor compreensão das questões associadas a saúde masculina.2 A categoria gênero tem grande importância nas abordagens ao comportamento em saúde dos homens, permitindo interpretação de diferentes valores e modelos de masculinidade.3

Comumente o comportamento em saúde está relacionado a concepções sobre o trabalho, o corpo, a sexualidade, a contraposição à mulher e às transformações nas relações de gênero.4 Movidos por tais concepções, os homens tem procurado serviços de saúde que atendam aos seus anseios, buscando, desta forma, aqueles que apresentam maior prontidão no atendimento5 e cujas ações sejam pautadas em intervenção médica curativa e medicalizante.6

Frente ao exposto, este trabalho vem ao encontro da necessidade de melhor compreender a seguinte questão: qual o comportamento do homem adulto diante de sua saúde e qual a relação com os motivos que o levam a procurar por serviços de Pronto Atendimento (PA)? A escuta dos homens, enquanto sujeitos de cuidado, pode contribuir na reflexão sobre o tema por parte dos profissionais de saúde e impulsionar as transformações necessárias para o atendimento direcionado às expectativas da população masculina. Assim, os objetivos do estudo foram: conhecer o comportamento em saúde de homens adultos e compreender as relações de seu comportamento com a busca pelos serviços de saúde.

Métodos

    Estudo descritivo qualitativo, desenvolvido em dois serviços de PA de cidades distintas do Norte do Paraná-Brasil. Estes serviços foram escolhidos por conveniência, pois ambos apresentam características semelhantes no que concerne ao atendimento aos homens, como a grande demanda de casos de acidentes ocupacionais e de trânsito ou quadros clínicos tratáveis no âmbito da Atenção Primária à Saúde.

Participaram do estudo 32 homens adultos que atenderam aos seguintes critérios de inclusão: ter idade entre 20 e 59 anos e ter adentrado a unidade por qualquer motivo no período de coleta dos dados. O critério de exclusão foi: não apresentar condições clínicas, físicas e/ou mentais para participar da entrevista.

As entrevistas foram realizadas em local reservado no próprio serviço, após o atendimento médico, e ocorreram nos meses de Novembro e Dezembro de 2012. Para a coleta dos dados utilizou-se um roteiro semiestruturado, constituído por questões relativas às características sociodemográficas e questões norteadoras referentes ao comportamento em saúde, quais sejam: Relate o que você faz ou não faz, mas acha que deveria fazer para manter uma boa saúde? Você fez/faz algo que considera prejudicial à sua saúde? Em que situações procura os serviços de saúde? e Diante de necessidades de saúde, qual serviço de saúde você procura? Por quê?

As entrevistas tiveram duração média de 20 minutos, foram gravadas, transcritas na íntegra e após, submetidas ao processo de edição. Para a análise, utilizou-se como aporte metodológico a Análise de Conteúdo, modalidade temática. O processo de análise seguiu as etapas pré-estabelecidas, que incluiu a pré-análise com leituras flutuantes e intensivas, a exploração do material com a categorização e agrupamento conforme suas semelhanças e o tratamento dos dados que se deu a partir da análise da comunicação objetiva e subjetiva desse material, utilizando-se procedimentos sistemáticos para compreender o conteúdo expresso nas falas e chegar a núcleos de sentido, que foram agrupados em categorias temáticas.7

O desenvolvimento do estudo atendeu as normas nacionais e internacionais de ética em pesquisa envolvendo seres humanos.

Resultados

    A idade média dos participantes do estudo foi de 36,1 anos. Em relação ao estado marital 20 sujeitos eram casados ou estavam em união consensual estável. Somente três entrevistados já estavam aposentados, e os demais encontravam-se inseridos de maneira formal ou informal no mercado de trabalho.

Comportamento em saúde e peculiaridades de gênero

    Os homens adultos verbalizaram certas concepções de gênero que condicionam a forma como homens e mulheres cuidam da saúde: "É o estilo, do homem e da mulher, o homem já pensa que é mais forte, e a mulher é mais frágil" (H.27,35 anos; mal estar geral).

A fragilidade restrita à mulher, conforme observado nas falas dos homens, torna-a mais cuidadosa em relação à própria saúde. O homem, por sua vez, não se preocupa de imediato com problemas que considere pequenos, porém, tal como observado a seguir, entendem que o zelo com a saúde deve conduzir a reflexões sobre a expectativa de vida: "[...] a mulher, se ela tem uma dorzinha ela já procura o médico, já diz o que está sentindo, já o homem não, se ele sentir uma dor de cabeça ele fica ali mesmo, toma um remédio caseiro, uma coisa ou outra e não está nem aí!" (H.17,38 anos; hipogastralgia). "[...] por exemplo, se o homem tem uma ferpa no dedo, ele não entende que essa ferpa pode se tornar algo mais grave, daí ele não vai no hospital, porque acha que é só uma ferpa! Então a pessoa tem que parar para pensar o que ela quer para a vida, se quer viver 30 anos ou quer viver 60 anos" (H.32, 28 anos; lombalgia por queda no trabalho).

Segundo os homens, a mulher possui maior facilidade para cuidar da saúde por tendência a procurar pelos serviços de saúde quando do surgimento dos primeiros sintomas. Outro fator que influencia na procura delas pela assistência médica é a maior disponibilidade, pois como relata H.31 elas "apenas" se dedicam ao lar: "A mulher é dona de casa, cuida do lar, então para ela é mais fácil, tem mais tempo, agora o homem já não" (H.31, 43 anos; lesão auricular por agressão em ambiente doméstico).

Percebeu-se que as necessidades masculinas em saúde foram reduzidas, pelos próprios homens, a quadros clínicos gerais ou a fraturas. Ao contrário, as mulheres têm à sua disposição especialidades médicas que cuidam diretamente de sua saúde, por meio inclusive de práticas de promoção à saúde. "Tem um pouco de diferença entre o homem e a mulher, porque a parte feminina é um pouco mais complicada, a mulher vai mais frequentemente ao médico, já o homem não vai tanto. Ela precisa do ginecologista, para estar acompanhando, faz outros tipos de exames, agora com o homem não, só o clinico geral ou o homem que resolve os quebrados (ortopedista) ali já facilita" (H.26, 38 anos, fratura de maléolo).

No entanto, em seus relatos, os homens apontaram barreiras a um comportamento saudável, como o tabu que ainda existe em relação ao exame de próstata, enquanto cuidado preventivo que está imerso em um modelo machista de pensar e de se comportar: "[...] porque ainda tem aquele preconceito, aquela coisa do tabu com o homem que leva muitas vezes para o lado machista. Esse exame dos 40 anos mesmo é um preconceito grande que existe ainda" (H.19,29 anos; acidente de trânsito-motocicleta).

As concepções que os homens trazem consigo acerca das peculiaridades de gênero interferem na forma como eles se comportam em relação à saúde, além de permear as associações que eles verificam entre o comportamento em saúde e os motivos de procura pelos serviços de saúde.

O comportamento em saúde por homens adultos e a interface com as causas de procura do serviço

    O comportamento de homens adultos em relação à procura dos serviços se resume a busca pelo atendimento imediato apenas em caso de desequilíbrio importante e não tratável no domicílio. Antes de buscar o serviço de saúde, o homem procura resolver o problema por meio de recursos alternativos, que segundo concepções próprias representam a possibilidade de normalização do corpo. Apenas diante da falha nesta tentativa ou de problemas que realmente ameaçam seu bem estar, é que acontece a procura por suporte, sendo qualquer outra possibilidade um motivo sem importância, "à toa". "Passei mal e tentei tomar um remedinho em casa, mas não valeu de nada. Então é assim: se você toma seu remedinho de casa e não melhorou, aí é hora de procurar o Pronto Atendimento" (H.1, 59 anos; epigastralgia). "Procuro o Pronto Socorro quando sinto queimações, alguma coisa assim, um mal estar grave. À toa eu não venho não!" (H.5, 34 anos; ascite/hepatopatia).

Observou-se também a ausência de atividades que busquem promover e manter o estado de saúde, bem como o fato de os homens darem continuidade as suas tarefas diárias, mesmo que em situações de doença: "Ultimamente não faço nada saudável, é muito lanche e refrigerante e pouco exercício, então realmente nada" (H.11, 24 anos; acidente de trânsito-motocicleta). "Se eu levanto da cama, ando e trabalho, eu consigo fazer as outras coisas, então não procuro o serviço de saúde, só se doer além do extremo" (H.32, 28 anos; lombalgia por queda no trabalho).

Durante a vida desses homens, o comportamento de negligência diante dos cuidados com a saúde foi prejudicial à manutenção de seu bem-estar físico e mental e motivou a procura por serviços de PA. "[...] eu cuido um pouco da saúde, agora que tenho esse problema do rim, mas isso foi decorrente da vida pregressa que eu tive, do cigarro" (H.2, 44 anos; cólica renal). "Eu só vou mesmo (risada) em ultimo caso, igual essa situação presente, porque se tivesse vindo antes, não estaria tão, grave [...]" (H.18, 24 anos; picadura de aranha marrom). "Se eu não tivesse bebido eu não estaria correndo, estaria devagar, aí eu ia desviar e a moto não ia cair, eu estava correndo demais, não podia desviar" (H.25, 39 anos; acidente de trânsito-motocicleta).             

A despeito de comportamentos prejudiciais à saúde, condutas pautadas em cuidados preventivos referiam-se a mudanças no estilo de vida, motivada por experiências negativas vivenciadas pelos próprios homens, como o consumo nocivo de álcool e outras drogas. "Para começar, eu bebi muito, mas não bebo mais. Perdia noite de sono quando eu bebia, parei faz 14 anos" (H.31, 43 anos; lesão auricular por agressão no domicílio). "Eu fumei muitas drogas e foi o que estragou comigo, acabou com a minha vida e eu não podia ter feito. Graças a Deus hoje eu parei!" (H.13, 29 anos; acidente de trânsito-carro).

A percepção de que o comportamento em saúde interfere nas escolhas do indivíduo acerca da procura pelos serviços de saúde ficou evidente, sobretudo, quando atrelada a questão da gravidade do estado em que o homem se encontra. Neste ínterim ainda, emerge o papel do trabalho que, forçosamente, implica sobre os modos de se comportar em saúde.

A centralidade do trabalho no comportamento e no cuidado em saúde

    Os homens em sua maioria foram enfáticos e destacaram a atividade laboral como limitadora dos cuidados com a saúde, sobretudo por restrições de horário e substituição de práticas preventivas pela própria atividade exercida no trabalho. "Porque geralmente eu não tenho uma vida social, não tem dia, não tem hora para trabalhar, é carregar e descarregar" (H.14, Caminhoneiro, 42 anos; febre intensa). "Exercício físico faço muito pouco, porque meu trabalho já é um pouco pesado, então eu acho desnecessário" (H.28, Caminhoneiro,24 anos; entorse de punho).

O trabalho também pode implicar diretamente sobre a saúde do homem, motivando a procura pelo serviço de PA: "O meu serviço é pesado, trabalho lá com um carrinho de 200 kg, mas isso aí é normal, pego saco de 70 kg para descarregar. Então acho que isso me levou a ter essa hérnia" (H.3, Suinocultor, 53 anos; algia inguinal).

Diante de tamanha representatividade e importância dada ao trabalho em suas vidas, os homens não omitem a preocupação que tem em relação à produtividade, ao desempenho e ao atendimento aos clientes, como por exemplo, observa-se na fala de H.31 que é autônomo. "Eu tenho meus clientes, eu tenho que atender meus clientes porque se eu não atender bem, outro vai e atende no meu lugar aí eu perco" (H.31, Serviços Gerais, 43 anos; lesão auricular por agressão em ambiente doméstico).

Em casos extremos, o homem adulto revela táticas empregadas para não perder o emprego, como preferir a dor ao ter que buscar suporte profissional para resolução do problema, defendendo a posição que ocupa no espaço de trabalho. "Às vezes eu preferia ficar no serviço sofrendo algumas dores do que ir, já trabalhei engessado, enfaixado, porque não dava para perder o serviço" (H.29, Aposentado, 51 anos; cólica renal).

Apesar de ter-se evidenciado que a saúde para muitos homens ficou relegada a segundo plano, pode-se observar também que H.23 e seus colegas procuraram dar visibilidade e discutir o assunto "saúde do homem" no ambiente de trabalho: "[...] pedimos para a empresa fazer uma palestra sobre a saúde do homem e foi bem correspondido" (H.23, Ladrilheiro, 34 anos; amputação de falange-acidente de trabalho).

Discussão

    O estudo apresenta limitações por ter sido realizado junto a um grupo restrito da população masculina em apenas dois serviços de saúde, impossibilitando generalizações para outros grupos ou espaços de cuidado. Por outro lado, favorece a compreensão sobre o comportamento masculino em saúde, o qual ainda é pouco estudado.

Com base nos achados do presente estudo ressalta-se que, ao possibilitar que o homem adulto expresse-se acerca de seu comportamento em saúde, espera-se inevitavelmente que ele lance sobre si e sobre os outros, um olhar permeado por nuances de gênero, mutáveis de acordo com o tempo, o espaço, e contextos culturais.8 Neste âmbito, o homem percebe na mulher maior proximidade com o cuidado pelas especificidades do corpo feminino, sobretudo no que tange a fragilidade, e suprime suas próprias necessidades em saúde.2

Esta forma de pensar e perceber o mundo faz com que o homem adulto também molde sua maneira de exercer o cuidado consigo ou com o outro e que dite a maneira como conduz sua vida.9 A despeito de considerações meramente biológicas, os modos como as necessidades do corpo são entendidas sofrem influência de um processo multifatorial, o qual envolve questões culturais, políticas e sociais, que convergem na categoria de gênero.10 Ao tomar como exemplo o exame de rastreamento do câncer de próstata, depara-se com uma prática permeada por barreiras socioculturais, provocadora de conflitos com o próprio corpo, com a sexualidade e com os ideais rígidos de masculinidade.11

A repercussão destas barreiras na saúde do homem extrapola limites e leva-o a buscar os serviços de PA pelas mais diversas causas, majoritariamente, quando já não suporta mais as implicações sobre o corpo, porém quando o problema de saúde se encontra em estágio avançado ou diante de situações emergenciais.5

Estudo realizado no Sul do Brasil, junto a 15 homens com idade entre 25 e 59 anos, também observou que a automedicação e o uso de chás, estão entre as alternativas terapêuticas, em substituição a procura pelos serviços de saúde.12 Os achados do presente estudo, além de reforçarem as observações daquele estudo, reiteram que as alternativas terapêuticas não estão inseridas exclusivamente no cotidiano de homens idosos,13 mas também na vida dos mais jovens, e ainda que isto requer atenção especial de profissionais de saúde.

Estudo realizado com profissionais de saúde evidenciou que a procura de serviços de Atenção Primária a Saúde por homens, sobretudo com idade entre 30 e 50 anos, ocorria principalmente por condições de urgência.14 Diferentemente, o presente estudo aponta que os homens buscaram os serviços de PA mesmo quando a causa era tratável na atenção primária, diante da necessidade de prontidão no atendimento. Analogamente, outro estudo assevera que homens buscam pelo setor emergencial em decorrência da facilidade de acesso a medicamentos e outras tecnologias.15

Hábitos comuns entre os homens como o uso abusivo de álcool levam a consequências danosas para a saúde masculina e condicionam a procura por suporte profissional. Ressalta-se assim que certos agravos mantem estreita relação com o comportamento no meio social, que reproduz atitudes condizentes com o esperado socialmente para um homem.2 Até então as desigualdades de gênero, oriundas de uma cultura patriarcal, sempre foram ligadas ao sofrimento feminino, especialmente no campo da sexualidade.16,17 Porém, o ideal masculino de poder/invencibilidade determina a exposição a riscos e a adoção de hábitos prejudiciais (uso de álcool e drogas psicotrópicas ilícitas) pelos homens e caracterizam o predomínio deles nas relações de violência.18

Entretanto, mesmo diante deste perfil faz-se importante considerar certas mudanças nas relações e nos papéis de gênero que vêm ocorrendo nos últimos tempos.18 A aproximação com os cuidados em saúde referida por alguns homens suscita uma resultante de tais transformações, ou seja, o homem passou a cuidar mais de si a partir do momento em que se deparou com a ascensão das mulheres, que passaram a se destacar também nos espaços sociais e, sobretudo no trabalho, sem deixar de dedicar-se a saúde de si e a dos outros.2

Contudo, a tendência de apreender o homem como forte, invulnerável e provedor ainda se encontra presente nas percepções, tanto de profissionais de saúde19 quanto nas dos próprios indivíduos.5 Este modo de compreender o homem também atribui ao trabalho um papel central, o qual influencia diretamente em seu comportamento com a saúde.4

No presente estudo, por sua vez, destaca-se um achado interessante, qual seja a aproximação dos homens adultos com a temática "saúde" justamente no ambiente de trabalho. As pesquisas nacionais e internacionais que inserem o homem na discussão de gênero no contexto da saúde coletiva tem colaborado para popularização deste assunto, tanto entre os próprios homens quanto entre profissionais e gestores de saúde.20

No que cabe a formação dos profissionais de saúde, reitera-se a necessidade de estimular acadêmicos a conhecerem o comportamento masculino em saúde e identificar as possibilidades de aproximação com os homens, como aproveitar o próprio ambiente de trabalho em que o homem está inserido. Planejar estratégias efetivas de educação em saúde, com envolvimento em campanhas temáticas, capacitação de profissionais do setor saúde e divulgação em meios de comunicação, pode colaborar para a sensibilização dos homens quanto à adoção de comportamentos protetores em saúde, especialmente entre os mais jovens.21

No caso do homem adulto, a afirmação de que ele simplesmente não se preocupa com sua própria saúde se mostra limitada e excludente, pois não considera barreiras econômicas, as dos sistemas de saúde, as impostas pelo trabalho e pela introjeção de uma cultura rigidamente limitante.22

Considerações finais

    Os resultados deste estudo demonstraram que o comportamento em saúde de homens adultos mostra-se ambivalente, ora colaborando para a manutenção de uma boa saúde ora pouco cuidando de si. A pouca procura por serviços de saúde em caráter preventivo e a não realização de autocuidado, favorecem a manutenção de péssimas condições de saúde, e são relatados em contraposição ao comportamento feminino, de forma relacional. Como exemplo destas práticas pode-se observar a busca pelo serviço de saúde somente após surgimento de algum sintoma, a automedicação, enquanto estratégia de enfrentamento e o adiamento da busca por ajuda profissional.

Ao verbalizarem sobre seu comportamento em saúde, os homens teceram relações com tempos passados e consequências no presente, dentre elas, os motivos que os levaram a procurar pelos serviços de PA. Ressalta-se também a centralidade do trabalho nas falas e no cotidiano dos homens, bem como as iniciativas de interesse pelo tema saúde, justamente no ambiente de trabalho, trazendo, desta forma, possibilidades de atuação para os profissionais de saúde nos serviços de saúde junto aos homens.

Referências

1. Nascimento ARA, Trindade ZA, Nascimento IFG, Pereira FB, Silva SATC, Cerello AC. Masculinidades e práticas de saúde na Região Metropolitana de Belo Horizonte - MG. Rev Saúde Soc. 2011; 20(1):182-94. Disponível em: <https://www.scielo.br/pdf/sausoc/v20n1/20.pdf> [Acessado em 05.05.2013]
2. Figueiredo WS, Schraiber LB. Concepções de gênero de homens usuários e profissionais de saúde de atenção primária e os possíveis impactos na saúde da população masculina. Ciênc Saúde Colet. 2011;16(Supl.1):935-44. Disponível em:
https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-81232011000700025&script=sci_abstract&tlng=pt  [Acessado em 05.05.2013]    
3. Tonelli MJF, Souza MGC, Muller RCF. Masculinidades e práticas de saúde: retratos da experiência de pesquisa em Florianópolis/SC. Physis Rev Saúde Col. 2010; 20(3):973-94. Disponível em:
https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-73312010000300015  [Acessado em: 05.05.2013]    
4. Figueiredo WS. Masculinidades e cuidado: diversidade e necessidades de saúde dos homens na atenção primária. Tese [doutorado]-Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo; 2008. Disponível em:
https://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/5/5137/tde-15122008-155615/pt-br.php [Acessado em 05.05.2013]  
5. Couto MT, Pinheiro TF, Valença O, Machin R, Silva GSN, Gomes R, et al. O homem na atenção primária a saúde: discutindo invisibilidade a partir da perspectiva de gênero. Interface Com Saúde Educ. 2010; 14(33): 257-70. Disponível em:
https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-32832010000200003&script=sci_arttext [Acessado em 05.05.2013]   
6. Schraiber LB, Figueiredo WS, Gomes R, Couto MT, Pinheiro TF, Machin R, et al. Necessidades de saúde e masculinidades: atenção primária no cuidado aos homens. Cad Saúde Pública. 2010;26(5):961-70. Disponível em:
https://www.scielo.br/pdf/csp/v26n5/18.pdf [Acessado em 05.05.2013]     
7. Bardin L. Análise de Conteúdo. São Paulo, Edições 70; 2011. 229 p.    
8. Xavier ATF, Ataíde MBC, Pereira FGF, Nascimento VD. Análise de gênero para o adoecer de câncer. Rev Bras Enferm. 2010;63(6):921-6. Disponível em:
https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0034-71672010000600008&script=sci_arttext [Acessado em 08.05.2013]      
9. De Vitta A, Neri AL, Padovani CR. Saúde percebida em homens e mulheres sedentários e ativos, adultos jovens e idosos. Salusvita. 2006; 25(1): 23-34.  Disponível em:
https://secure.usc.br/static/biblioteca/salusvita/salusvita_v25_n1_2006_art_02.pdf [Acessado em 13.05.2013]     
10. Anchel MJA, Laiseca JV. Género, imagen y representación del cuerpo. Index de Enfermería. 2011; 17(1): 39-43. Disponível em:
https://scielo.isciii.es/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1132-12962008000100009&lng=es https://dx.doi.org/10.4321/S1132-12962008000100009 [Acessado em 01.09.2013]
11. Paiva EP, Motta MCSM, Griep RH. Barreiras em relação aos exames de rastreamento do câncer de próstata. Rev. Latino-Am. Enferm. 2011; 19(1):73-80. Disponível em:
https://www.scielo.br/pdf/rlae/v19n1/pt_11.pdf [Acessado em 01.06.2013]    
12. Vieira KLD, Gomes VLO, Borba MR, Costa CFS. Atendimento da população masculina em unidade básica saúde da família: motivos para a (não) procura. Esc Anna Nery. 2013; 17(1): 120-7.
13. Lima SCS, Arruda GO, Renovato RD, Alvarenga MRM. Representações e usos de plantas medicinais por homens idosos. Rev Laino-Am. Enferm. 2012; 20(4): 778-86.
14. Knauth DR, Couto MT, Figueiredo WS. A visão dos profissionais sobre a presença e as demandas dos homens nos serviços de saúde: perspectivas para a análise da implantação da Política Nacional de Atenção Integral à Saúde do Homem. Ciênc Saúde Colet. 2012; 17(10):2617-26. Disponível em:
https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1413-81232012001000011&script=sci_arttext [Acessado em 08.05.2013]  
15. Gomide MFS, Pinto IC, Figueiredo LA. Acessibilidade e demanda em uma Unidade de Pronto Atendimento: perspectiva do usuário. Acta Paul Enferm. 2012; 25(Número Especial 2): 19-25. Disponível em:
https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0103-21002012000900004&script=sci_arttext&tlng=pt [Acessado em 12.05.2013]   
16. Prates CS, Abib GMC, Oliveira DLLC. Poder de gênero, pobreza e anticoncepção: vivencias de multíparas. Rev Gaúcha Enferm, Porto Alegre (RS). 2008; 29(4):604-11.
17. Prado EP. Guía de buenas prácticas en Atención Primaria con perspectiva de género. Index de Enfermería. 2011; 20(4): 267-271. Disponível em:
https://www.index-f.com/index-enfermeria/v20n4/7472r.php  [Acessado em 01.09.2013].
18. Gomes R. Saúde do Homem em debate. 2011; Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 228.     
19. Machin R, Couto MT, Silva GSN, Schraiber LB, Gomes R, Figueiredo WS, et al. Concepções de gênero, masculinidade e cuidados em saúde: estudo com profissionais de saúde na atenção primária. Ciênc Saúde Colet. 2011; 16(11): 4503-12. Disponível em:
https://www.scielo.br/pdf/csc/v16n11/a23v16n11.pdf [Acessado em 12.05.2013]          
20. Gomes R, Nascimento EF. A produção do conhecimento da saúde pública sobre a relação homem-saúde: uma revisão bibliográfica. Cad Saúde Pública. 2006; 22(5):901-11. Disponível em:
https://www.scielo.br/pdf/csp/v22n5/03.pdf [Acessado em 17.05.2013]    
21. Ribeiro LCM, Peixoto MKAV, Weirich CF, Ribeiro JP, Marinho TA. Ações de educação em saúde no combate ao tabagismo: relato de experiência. Cienc Cuid Saude. 2011; 10(2): 345-52
22. Borges LM, Seidl EMF. Percepções e comportamentos de cuidados com a saúde entre homens idosos. Psic Ciênc Prof. 2012;32(1): 66-81. Disponível em:
https://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-98932012000100006&script=sci_arttext [Acessado em 20.05.2013]

Principio de p�gina 

error on connection